Olho no Rock, por Amanda Amaral
Em 21 de agosto de 1989, o Brasil se despediu de Raul Santos Seixas, mais conhecido como Raul Seixas ou simplesmente Raulzito. Mesmo sem ter chegado aos 30 anos de idade ainda, sou uma grande admiradora de um artista que deixou uma marca inesquecível na música. Recordo com carinho das canções de Raulzito, que sempre animaram os churrascos em família, com todos cantando a plenos pulmões. Hoje, 36 anos após seu falecimento, sua obra permanece viva, transcendendo gerações e mantendo seu nome como um dos maiores ícones do rock nacional.

A juventude e o surgimento do artista
Nascido em Salvador, em 28 de junho de 1945, Raul desenvolveu uma paixão por Elvis Presley e pelo rock’n’roll americano. Ainda na adolescência, fundou sua primeira banda, Os Panteras, que lançou o unico disco intitulado de Raulzito e os Panteras em 1968. Embora o álbum não tenha alcançado sucesso desejado, já demonstrava a ousadia de Raul em combinar influências estrangeiras com elementos brasileiros.
Pouco tempo depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar como produtor na CBS Records. Foi nesse ambiente que sua carreira tomou um novo rumo, com o lançamento, em 1973, do clássico “Krig-Ha, Bandolo!”, que trouxe sucessos como “Ouro de Tolo” e “Mosca na Sopa”.
A construção da lenda Raul Seixas
Ao longo dos anos 1970, Raul Seixas se estabeleceu como uma voz singular na música brasileira. Suas letras combinavam filosofia, esoterismo, anarquia, crítica social e humor ácido. Ele era roqueiro e profundamente ligado às suas raízes nordestinas; abordava espiritualidade, mas também política; era popular, mas também cultuado como intelectual.
Parcerias marcaram sua trajetória. A mais notável foi com Paulo Coelho, com quem compôs canções que se tornaram hinos, como “Sociedade Alternativa”. Inspirados no ocultista inglês Aleister Crowley, Raul e Paulo chegaram a idealizar a criação de uma comunidade alternativa no interior do Brasil, a famosa “Cidade das Estrelas”.

A discografia de Raul Seixas: uma jornada musical inesquecível
A trajetória de Raul também pode ser contada por meio de sua discografia, que reflete sua evolução artística e suas inquietações pessoais. Seu primeiro álbum solo, Krig-Ha, Bandolo! (1973), já mostrava sua ousadia, trazendo clássicos como “Ouro de Tolo” e “Mosca na Sopa”, canções que misturavam crítica social, humor e questionamento existencial.

Em 1974, lançou Gita, álbum que consolidou sua parceria com Paulo Coelho e trouxe músicas marcantes como “Gita” e “Sociedade Alternativa”, reafirmando seu fascínio pelo misticismo e filosofia. Novo Aeon (1975) e Há 10 Mil Anos Atrás (1976) exploraram ainda mais essas referências, misturando rock, ritmos brasileiros e letras profundas sobre liberdade e autoconhecimento.



Nos anos 80, álbuns como Metrô Linha 743 (1983) e Raul Seixas Ao Vivo Unico e Exclusivo (1984) mostraram sua versatilidade e energia nos palcos, reafirmando sua conexão com o público. Mesmo com altos e baixos, cada lançamento carregava a marca de sua personalidade irreverente, sempre desafiando convenções e deixando sua assinatura única no rock nacional.


Sucessos atemporais
Alguns de seus maiores clássicos incluem:
“Metamorfose Ambulante” – uma exaltação à liberdade de mudar e evoluir;
“Gita” – inspirado no texto sagrado hindu Bhagavad Gita, com referências místicas e existenciais;
“Tente Outra Vez” – um hino motivacional que continua a inspirar;
“Maluco Beleza” – talvez sua definição mais simples e autêntica.
Essas músicas não foram apenas sucessos comerciais, mas obras que ressoam na minha alma e na de todos os brasileiros, especialmente em um período marcado pela ditadura militar e pela repressão. Raul foi um artista que ofereceu não apenas entretenimento, mas também reflexão e contestação, algo revolucionário para a época.
A vida entre excessos e genialidade
Apesar da genialidade, Raul Seixas teve uma vida marcada por excessos e desafios. O abuso de álcool e drogas, junto a problemas de saúde, causou altos e baixos em sua carreira. Ele chegou a se afastar dos palcos, mas sempre retornava, impulsionado pela devoção de seus fãs.
Em 21 de agosto de 1989,em São Paulo, Raul Seixas se despedia desse mundo , aos 44 anos, em decorrência de uma pancreatite. Sua morte prematura deixou um vazio imenso entre seus admiradores, mas solidificou seu lugar como ícone e lenda do rock nacional.
Raul Seixas além da música
Raul Seixas transcendeu a figura de músico: foi pensador, escritor, provocador cultural e visionário. Ele defendia a liberdade artística quando desafiar o regime era perigoso. Cantava sobre autoconhecimento, espiritualidade e transformação pessoal muito antes de esses temas ganharem destaque.
A minissérie “Raul Seixas: Eu Sou”, lançada em março de 2025 no Globoplay, não apenas destaca seus hits, mas também revela os bastidores de sua vida, seus dilemas, fontes de inspiração e extravagâncias. A obra mostra o homem por trás do artista excêntrico, expondo seus sonhos, laços, relacionamentos, excessos e toda sua genialidade. Assisti à série e posso dizer: você vai amar e odiar Raul ao mesmo tempo.

Quando escuto a frase “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, sinto como se Raul estivesse falando diretamente comigo. É impossível não me identificar com essa vontade de viver em transformação, de questionar e de me permitir mudar.
Raul Seixas se foi cedo, mas para mim, seu legado é mais do que música: é inspiração. Cada canção sua me lembra que ser autêntica, ousada e até um pouco rebelde não é apenas permitido, é necessário. Mais do que um cantor, ele se tornou um símbolo de coragem e liberdade, alguém que me incentiva a seguir meu próprio caminho sem medo.
“Raulseixista não morre, se transforma.”

Olho no Rock, por
@amandaluizae
Publicitária, estudante de Jornalismo, Fotógrafa e produtora de conteúdo, apaixonada por música e por tudo que acontece nos bastidores. Aqui você encontra meu ponto de vista sobre o universo do rock com informação de qualidade, imagens de impacto e muita atitude!