Existem duas formas de assistir ao Guns N’ Roses em 2026: com a nostalgia de quem ainda espera 1991 ou com o olhar de quem entende que o rock é, acima de tudo, sobrevivência e adaptação. No encerramento do Monsters of Rock 2026, no Allianz Parque, fomos testemunhas da segunda opção.
A banda além de subir ao palco ela se reorganizou artisticamente e entregou um show de quase 3:00h que, tecnicamente, supera qualquer apresentação recente no Brasil.

O elefante na sala sempre foi a voz de Axl Rose, porém, desta vez, houve uma mudança clara: Axl parou de lutar contra o tempo e isso finalmente jogou a favor. Mesmo sem reduzir o setlist mas deixando de lado baladas como “Don’t Cry” e “Patience”, abriu espaço para um registro mais confortável e eficiente. Com isso, Axl se apoia mais nas regiões médias e graves, ganhando consistência e controle ao longo da apresentação.
Em faixas como “Bad Obsession” e a raríssima “Bad Apples” que foi um verdadeiro presente. Ela estava ausente dos palcos há décadas e o vocalista mostrou controle e presença. Os agudos ainda aparecem em momentos-chave como “Welcome to the Jungle” e “Paradise City”, mas agora equilibrados por um repertório mais “sujo”, puxado para o Appetite for Destruction e Use Your Illusion.
O resultado? Um show mais fluido e muito mais honesto do que o visto no Rock in Rio 2022.

Para quem acompanha produção musical e audiovisual, uma mudança ficou evidente: o palco estava mais limpo sonora e visualmente. A ausência de Melissa Reese não foi apenas uma lacuna na formação, mas uma escolha estética. Com apenas Dizzy Reed nas teclas, o Guns resgatou seu DNA de banda de garagem em versão estádio.
As guitarras de Slash e Richard Fortus ganharam mais espaço, mais volume e mais personalidade.
Slash, como esperado, operou em outro nível. Seu solo em “Civil War”, agora com trechos de “Voodoo Child”, foi uma aula de timbre e sustentação. Na base, Duff McKagan trouxe ainda mais energia com o reforço de Isaac Carpenter. O resultado foi uma cozinha mais rápida, mais punk e menos engessada.
O Guns de 2026 tomou uma decisão ousada: praticamente ignorar o álbum Chinese Democracy. O foco foi direto no que a banda faz melhor hard rock visceral. As inéditas “Atlas” e “Nothin’” indicam que ainda existe combustível criativo, mas o verdadeiro brilho veio das escolhas inesperadas.
Músicas como “Dead Horse” e “Double Talkin’ Jive” deram o tom do setlist. E mais do que isso: mostraram uma banda se divertindo. Axl, em momentos descontraídos, brincou com o público (incluindo referências inusitadas como dançar Macarena) e compartilhou histórias envolvendo Ozzy Osbourne ao mencionar o cover de “Junior’s Eyes” do Black Sabbath.
Ali, o Guns deixou de ser apenas um gigante do entretenimento e voltou a parecer… uma banda.

Visualmente, a turnê também evoluiu. Saem as animações literais de armas e rosas. Entra uma estética mais abstrata e cinematográfica. A iluminação aposta em silhuetas e contrastes fortes, valorizando a iconografia de Slash e a movimentação constante de Duff. É um show pensado para imagem: cada pausa, cada contra-luz, cada explosão de luz parece construída para virar frame.
O encerramento do Monsters of Rock 2026 mostrou que o Guns N’ Roses não precisa mais provar nada mas escolheu provar mesmo assim. A banda encurtou excessos, aumentou o peso e entregou algo raro: honestidade.
A selva continua perigosa.
Só que agora, muito mais sofisticada.
Setlist Guns N’ Roses no Monsters of Rock 2026
01) Welcome to the Jungle
02) Slither [Velvet Revolver]
03) It’s So Easy
04) Live and Let Die [Wings]
05) Mr. Brownstone
06) Bad Obsession
07) Rocket Queen
08) Perhaps
09) Dead Horse
10) Double Talkin’ Jive
11) Nothin’
12) You Could Be Mine
13) Civil War [com Voodoo Child (Slight Return), de Jimi Hendrix, como “outro”]
14) Junior’s Eyes [Black Sabbath]
15) Knockin’ on Heaven’s Door [Bob Dylan] [com “Only Women Bleed”, de Alice Cooper, de intro]
16) New Rose [The Damned] [Duff canta]
17) Atlas
18) Solo de Slash
19) Sweet Child o’ Mine
20) Estranged
21) Bad Apples
22) November Rain
23) Nightrain
24) Paradise City
Outro: The Writ [Black Sabbath]

Publicitária, estudante de Jornalismo, Fotógrafa e produtora de conteúdo, apaixonada por música e por tudo que acontece nos bastidores. Aqui você encontra meu ponto de vista sobre o universo do rock com informação de qualidade, imagens de impacto e muita atitude!



