Estamos a poucas horas do início do Bangers Open Air 2026, e se existe uma banda que sintetiza o atual momento de força do metal brasileiro no exterior, essa banda é a Crypta. Liderado por Fernanda Lira, o quarteto chega ao festival para mais uma performance avassaladora.
A apresentação no festival marca um momento de transição importante para o grupo. Após uma sequência exaustiva de turnês globais e o sucesso comercial de Shades of Sorrow, a banda se prepara para encerrar este ciclo e olhar para o futuro. Além do amadurecimento musical, a Crypta tem se destacado pela gestão de sua dinâmica de estrada e pelo papel ativo no fortalecimento da cena feminina.

Em entrevista à Hora do Rock Web, Fernanda Lira detalha os bastidores dessa engrenagem: desde a preparação para o próximo álbum de estúdio e a logística de grandes turnês, até o impacto emocional de dividir o palco com o Sepultura em sua turnê de despedida. A vocalista também comentou sobre a nova fase de Jéssica Falchi, que após integrar a Crypta, agora assume as guitarras do lendário Korzus, selando um interessante intercâmbio de talentos entre diferentes gerações do nosso metal.
Entrevista: Fernanda Lira (Crypta)
Fernanda, você já mencionou algumas vezes como o Sepultura foi vital para a sua decisão de seguir carreira no metal. Considerando isso, qual é o peso emocional de dividir o palco com eles em uma arena como a 3Arena, exatamente na turnê de despedida da banda? Como você processa o fato de que a Crypta agora faz parte deste capítulo final de uma das suas maiores influências?
Fernanda Lira: Olha, eu ainda não processei o fato de que a Crypta agora faz parte desse capítulo. É algo muito especial para mim. Primeiro porque eu tenho até uma tatuagem do Sepultura (risos). Com certeza foi uma banda que me influenciou musicalmente em toda a minha trajetória, principalmente na época da Nervosa; álbuns como Beneath the Remains e Arise foram bases fundamentais para eu compor minhas músicas.
Mas, para além da música, o que o Sepultura sempre significou na minha vida foi a prova de que é possível ser uma banda de metal latino-americana e brasileira — com todas as dificuldades que a gente conhece — e viver do sonho. Essa foi a mensagem que eles sempre me passaram e que carreguei no coração como um objetivo: “Se eles conseguiram, quem sabe um dia eu também não consiga”. Essa mensagem foi minha maior luz por muito tempo.
Então, só de fazer parte dessa turnê já seria incrível, mas estar no último show dessa instituição na Europa é único. É um privilégio dividir esse momento histórico que é, ao mesmo tempo, triste, por ver uma das maiores bandas do mundo e nosso maior orgulho encerrando a carreira, mas também de muita felicidade por participar dessa celebração da vida do Sepultura. Eu nem acredito ainda que vou fazer parte disso.
E em Dublin ainda será muito bacana, porque é uma cidade com muitos brasileiros e a recepção para a Crypta sempre foi incrível por lá. Além de tudo, será o nosso primeiro show em arena, o que diz muito sobre a nossa trajetória e consolida toda a nossa correria. É uma grande validação do nosso trabalho e um momento realmente muito especial.


A próxima turnê europeia foi anunciada como a despedida oficial do ciclo do Shades of Sorrow, um disco que consolidou o som de vocês globalmente e teve uma recepção incrível. O que vocês sentem que aprenderam musicalmente com este álbum e que pretendem levar (ou deixar para trás) ao entrarem em estúdio para gravar o próximo álbum?
Fernanda Lira: O Shades of Sorrow é um disco muito importante para nós. Foi o trabalho que nos levou às paradas da Billboard, entrando em duas listas logo no lançamento, o que trouxe muita satisfação e conquistas. Quase três anos depois, ainda estamos promovendo o álbum e colhendo esses frutos. Ele foi fundamental porque essas validações nos mostraram o quanto somos capazes com nossas próprias composições; nos consolidou como compositoras que interessam ao público e que atendem às expectativas dos fãs.
O grande aprendizado foi perceber que, quanto mais nos conectamos com o que acreditamos artisticamente, sem pressões ou rótulos, mais nos conectamos com quem nos ouve. Para o próximo disco, que já estamos finalizando a composição, trazemos essa segurança e autoestima. Se conseguimos fazer um segundo disco bom, temos a confiança de que conseguiremos fazer o terceiro.
Uma lição valiosa que tiramos desse processo foi sobre o perfeccionismo. Lembro que eu, a Tainá e a Luana tínhamos reuniões exaustivas, encanando com cada detalhe, como uma levada de bateria ou uma nota específica. No final, percebemos que entramos em uma “pira” por coisas que os fãs nem reparavam ou que aceitavam muito bem de qualquer forma.
Para este novo álbum, decidimos que não precisamos “encanar” tanto. Aprendemos a não perder tanta energia batendo cabeça com detalhes que não fazem uma grande diferença no resultado final. Estamos entrando nesse novo ciclo muito menos perfeccionistas, embora sempre comprometidas com a qualidade. O foco agora é acreditar na nossa capacidade artística e deixar a música rolar com mais leveza.


O ritmo de turnês da Crypta é intenso e exige muito entrosamento. Com a saída da Jéssica e a participação da Helena Nagagata como guitarrista convidada para segurar os riffs na estrada, como tem sido a adaptação da dinâmica ao vivo da banda? Como vocês fazem para manter a energia e a química do palco tão coesas durante essas transições?
Fernanda Lira: Sobre as transições na formação, tanto a Helena Nagagata quanto a Vitória Villa-Real já acompanhavam a banda antes de oficializarmos tudo, então elas já conheciam a nossa dinâmica. O que fazíamos para manter essa química coesa era conversar e explicar o que o público costuma curtir na presença de palco da Crypta, para que elas pudessem entrar nessa mesma energia. Ao mesmo tempo, sempre fizemos questão de deixá-las muito à vontade e livres nos ensaios e na estrada para expressarem quem elas são e trazerem sua própria performance. Acredito que deixar a pessoa o mais confortável possível é o que faz a química rolar, mesmo em processos de adaptação.
Quanto a manter a energia em um ritmo de mais de 100 shows por ano, é realmente um desafio. Na Crypta, nossa estratégia para não desanimar envolve garantir pelo menos um mês de folga entre as turnês para nos recompormos. Além disso, investimos muito em uma boa equipe de apoio. Levamos bastante gente e fazemos questão de pagar bem todos os profissionais para que eles possam realizar um trabalho que tire um pouco do peso e do cansaço das nossas costas. Também investimos em transportes de qualidade e conforto para todos. Tudo isso contribui para que, no final das contas, a gente consiga manter a energia lá no topo para encarar todas essas turnês.


Antes de focar nos grandes festivais brasileiros deste ano, como o Bangers Open Air, vocês fizeram a inovadora In the Other Side Tour, selecionando apenas bandas de abertura com mulheres nos vocais. Olhando para trás, qual foi o impacto real que você sentiu dessa iniciativa na cena nacional e como é a sensação de ver o espaço das mulheres no metal extremo crescendo dessa forma?
Fernanda Lira: O fortalecimento da cena feminina é um tema central para nós. A iniciativa da The Other Side Tour no Brasil foi muito legal porque nos permitiu colocar bandas com integrantes mulheres no palco, o que é uma maneira direta de fortalecer a cena. Em toda a minha trajetória no metal, eu sempre toquei exclusivamente em bandas formadas por mulheres, desde antes da Nervosa e da Crypta, porque acredito muito em trabalhar e criar essas oportunidades para nós.
Muita gente comenta que a Crypta não traz um ativismo explícito nas letras, mas eu acredito que o fato de sermos uma banda de mulheres em um meio predominantemente masculino já é a nossa maior contribuição. Nossa parte é garantir que mais mulheres nos vejam no palco — assim como vejam as musicistas com quem dividimos turnê — e se sintam inspiradas e confortáveis.
A representatividade é fundamental. Queremos que as meninas olhem para nós, ou para a Karina (Allen Key) e para a Nienna (Paradise in Flames), e pensem: “Poxa, se elas estão lá confortáveis vivendo esse sonho, eu também posso”. A diferença real que sentimos é ver muitas meninas à vontade no “rolê”. Hoje, as primeiras filas dos nossos shows estão sempre cheias de mulheres, e o feedback que recebemos delas no fim das apresentações mostra que elas se sentem felizes, confortáveis e, acima de tudo, representadas. Isso é muito bacana.


Fernanda, a Crypta é hoje o maior símbolo de renovação do nosso metal, enquanto o Korzus é uma das colunas que sustenta essa história há 40 anos. No Bangers Open Air, teremos esse encontro de gerações no mesmo dia, e com um detalhe especial: a Jéssica Falchi, que viveu toda essa ascensão com vocês, agora assume as guitarras dessa instituição que é o Korzus. Como é para você, pessoalmente, ver esse intercâmbio de talentos e sentir que alguém que esteve na ascensão da Crypta está ajudando a oxigenar e manter vivo o legado de lendas como o Pompeu?
Fernanda Lira: Eu acho esse intercâmbio fantástico. A verdade é que, antes de ser a “Fernanda da Crypta”, eu sou uma headbanger. Como fã, o que eu mais quero é ver o metal bem, se perpetuando e com a chama mais do que acesa. Fiquei muito feliz com a notícia da volta do Korzus; conheço o pessoal há muito tempo e já tive o prazer de trabalhar com o Pompeu na época da Nervosa, há cerca de 15 anos. Temos uma relação ótima e ele é uma lenda.
Ver esse gás novo vindo do Jean e da Jéssica, que são de uma outra geração, trazendo essa energia para uma banda veterana e colocando-a no “front” de novo, é algo incrível, necessário e muito gratificante. No fim das contas, o meu desejo é ver o metal com a chama muito acesa.
Além disso, tem o fato de ser mais um espaço ocupado por uma mulher indiscutivelmente talentosa. Ver uma mulher ocupando esse posto em uma banda que historicamente sempre teve homens é um passo muito importante para a representatividade. Isso vai significar muito para as meninas que estiverem na plateia do Korzus. Para mim, são apenas vitórias: todo mundo ganha. A Crypta segue seu caminho, o Korzus ganha esse novo fôlego e quem sai ganhando de verdade é a cena brasileira e os fãs. Acho perfeito.

Fernanda Lira e a Crypta sobem ao palco do Bangers Open Air amanhã, dia 25 de abril, pontualmente às 17h20 no palco Sun Stage. Preparem o pescoço, porque a despedida da era Shades of Sorrow promete ser um dos momentos mais intensos e memoráveis de todo o festival.
A equipe do Hora do Rock Web estará presente em peso na grade para conferir cada riff e celebrar essa ascensão imparável das meninas. Nos vemos no mosh!



