Por Rúbia de Souza – Hora do Rock Web
Em meio à repercussão da nova turnê do Guns N’ Roses no Brasil em 2026, desta vez sem Belo Horizonte, voltamos no tempo para ouvir quem mais entende do assunto na capital: Gegê Lara, produtor responsável por trazer a banda em diferentes momentos da carreira e por algumas das noites mais históricas do rock internacional em BH. Em seu currículo estão nomes como Paul McCartney, Ozzy Osbourne, Eric Clapton e B. B. King.
Com décadas de experiência nos bastidores e negociações diretas com o agente latino-americano do Guns, Gegê revisita as grandes produções feitas na cidade, avalia o mercado pós-pandemia e explica por que, na visão dele, é inviável para BH receber o grupo nesta nova etapa.

ENTREVISTA – GEGÊ LARA
“Sempre estivemos preparados para produzir grandes shows aqui”
Rúbia Souza, Hora do Rock:
Gegê, conte para a gente como foram, na prática, as negociações e a logística para trazer o Guns N’ Roses a Belo Horizonte. Quais foram os principais desafios de infraestrutura e operação (palco, arena, licenciamento, segurança)? E que lembrança você tem do público mineiro nessas noites?
Gegê Lara:
“Com muita sinceridade, não tivemos nenhum problema logístico, de segurança ou estrutura. Estávamos e sempre estamos preparados para produzir grandes shows por aqui, principalmente os de rock. O primeiro show deles foi em um antigo festival. Foram três apresentações, e eu sempre tratei com o mesmo agente que cuidou e cuida até hoje das turnês na América Latina e no Sul.”
“BH é a capital mais cara do país para se produzir um megashow”
Rúbia Souza, Hora do Rock:
Como produtor com longa trajetória em BH, como você avalia o mercado atual para receber megashows internacionais? O que mudou desde 2010/2014 em estrutura, diálogo com prefeituras, atratividade comercial e poder de compra do público?
Gegê Lara:
“BH é, com certeza, a capital mais cara para se produzir esses tipos de shows , assim como para produzir shows em geral. O Sul do país, além do Rio e de São Paulo, são mais atrativos. Exemplo: Porto Alegre. Lá, as arenas estão nas mãos dos clubes, e as negociações são mais flexíveis, e por aí vai… Melhor até parar de falar, porque por aqui também existem várias ‘distorções’ sobre equipamentos.”
“Os valores pedidos pelo Guns para 2026 são completamente fora da lógica”
Rúbia Souza, Hora do Rock:
Na sua visão, por que Belo Horizonte ficou de fora da nova etapa brasileira do Guns N’ Roses? Foi logística? Falta de estrutura? Custo/risco para produtor local? Negociação com organizadores nacionais? Questões políticas? Algo poderia ter sido feito para mudar esse cenário?
Gegê Lara:
“Nos últimos anos, o mercado de shows tanto internacional quanto grande parte do brasileiro, passou por uma transformação pós-pandemia. Entraram muitos investidores, novas empresas e algumas antigas que, na minha visão, ‘contaminaram’ o mercado. Surgiram muitos ‘desmazelos’ expostos pela mídia.”
“No caso específico do Guns 2026, posso afirmar que é um grande absurdo os valores que envolvem essa turnê. Completamente fora da lógica. Jamais eles teriam vindo para cá com os cachês agora praticados.”
“Digo isso porque os agentes dessa turnê, e de outras, que conheço muito bem querem ganhar comissões absurdas sobre as negociações. E, além de tudo, temos o valor do dólar frente ao real, o que torna as operações, sim, de altíssimo risco.”
A realidade por trás dos bastidores
A fala de Gegê Lara expõe um retrato franco da dinâmica atual dos grandes shows no Brasil: custos elevados, negociações complexas e um mercado pós-pandemia que mudou completamente as regras do jogo.
Se, por um lado, Belo Horizonte possui público fiel, praça historicamente forte e eventos marcantes no currículo, por outro enfrenta entraves estruturais, financeiros e políticos que pesam na rota de qualquer megaturnê internacional.
Para os fãs mineiros, fica a esperança de que a cidade volte ao mapa mas, como aponta o produtor, isso exigirá mais do que vontade. Será preciso tornar BH novamente competitiva no circuito dos grandes espetáculos.