O que está acontecendo com os shows e eventos em Belo Horizonte e no Brasil, não é coincidência. É um sintoma claro de um mercado que está pressionado por todos os lados.
Por: Rubia de Souza
Nos últimos meses, vimos uma sequência preocupante: o festival Somos Rock sendo cancelado em São Paulo e Curitiba, o Guns N´Roses cancelado no Rio de Janeiro por “questões de logísticas de produção” e as bandas Smash Mouth e Spin Doctors cancelaram suas apresentações na capital mineira, assim como outros artistas. Algumas produções estão migrando para cidades como Juiz de Fora devido ao baixo custo de operação. Além disso, bandas que estavam em negociação para vir à cidade sequer foram confirmadas, justamente pelos altos custos de produção.

E isso não é um caso isolado. Eu estou dentro desse mercado, trabalhando diretamente com produção e com casas de shows, e o que tenho visto é uma queda real de público, não só do estilo rock , mas de estilos como MPB, por exemplo. Não é achismo, é prática. As pessoas não estão conseguindo acompanhar o custo de ir a um evento.
Hoje, não é só o ingresso que pesa. É o combo completo: ingresso caro, alimentação, bebida, transporte, estacionamento… tudo isso somado torna a experiência inviável para grande parte do público. E o resultado é simples: eventos com baixa venda de ingressos e, consequentemente, cancelamentos.
Um exemplo claro foi o Rap Games, que tinha previsão de público de 15 mil pessoas e vendeu cerca de 1.600 ingressos há apenas 1 mês de realização do evento. Isso mostra um deslocamento enorme entre expectativa e realidade.
Particularmente, acho uma pena ver bandas do porte do Def Leppard deixando o Brasil de fora de sua próxima turnê pela América Latina. Não estamos falando de uma banda desconhecida ou sem público. Estamos falando de um nome que ajudou a construir a história do rock mundial. Ao que tudo indica, os produtores não enxergaram viabilidade suficiente para incluir o país em seu itinerário, o que acende um alerta importante para todo o mercado.
Claro que existem exceções. Shows pontuais, históricos ou com forte apelo emocional ainda performam muito bem. O Iron Maiden, por exemplo, esgotou rapidamente sua primeira data anunciada em São Paulo e motivou a abertura de uma apresentação extra, confirmando que algumas marcas seguem com enorme poder de mobilização junto ao público brasileiro. O mesmo acontece com nomes como Capital Inicial, CPM 22 e Rodox, bandas que seguem com excelente desempenho no país e frequentemente esgotando ingressos. Já bandas como Matanza e Massacration mostram que, além da música, o público valoriza eventos que entregam identidade, entretenimento e uma conexão genuína com os fãs. Isso mostra que o público ainda responde, mas de forma muito mais seletiva.
O próprio Rock in Rio talvez seja o melhor exemplo disso. O festival já demonstrou em diversas edições que muitas vezes se vende independentemente do line-up, porque deixou de ser apenas uma sequência de shows e se transformou em uma vicência. Talvez esse seja um dos grandes aprendizados para o mercado atualmente: o público continua disposto a investir dinheiro em entretenimento, mas cada vez mais procura experiências memoráveis. Quando o evento consegue entregar algo além do palco, as chances de sucesso aumentam consideravelmente.
O que também está acontecendo é uma mudança de estratégia no próprio mercado. Bandas do mainstream nacional continuam nos grandes festivais, mas estão migrando para shows em casas menores, com capacidade de até mil pessoas, como o Mister Rock. Isso reduz custos operacionais e aumenta a chance de viabilidade financeira. Lógico que existem exceções como Capital Inicial, Zeca Pagodinho, Lagum, Ney Matogrosso, Roupa Nova, entre outros, que esgotam datas devido a um conjunto claro de fatores como forte apelo popular, consolidação no mercado, repertório amplamente divulgado e principalmente conexão emocional com o público.
Estes fatores garantem ao produtor uma segurança de mercado porque o público já sabe exatamente o que vai encontrar, além disso, e tão importante quanto, os riscos de operação são menores porque existe histórico consistente de vendas.
Falando em custos, Belo Horizonte hoje é uma cidade cara para produzir eventos e, muitas vezes, mais cara do que Rio de Janeiro e São Paulo. Ficar fora da rota significa que parte do mercado já está fazendo as contas e concluindo, antecipadamente, que a operação pode não valer o risco e talvez seja o sinal mais forte da mudança que está acontecendo no setor de entretenimento ao vivo.
Produtoras e projetos têm rodado com o próprio equipamento. Em muitos casos, para produtores de fora, é mais barato trazer o backline completo do que alugar em Belo Horizonte. Isso já virou prática comum em turnês. Isso porque não vou nem entrar na esfera hotel, alimentação, transporte, por exemplo.
Artistas como Edu Falaschi e All Metal Stars e outros já trabalham nesse modelo: ônibus na estrada, estrutura própria e redução de custos locais. É uma adaptação do mercado para sobreviver.
E aí nos deparamos com a máxima que Belo Horizonte se vende como “cidade de eventos”, mas na prática não existe uma política pública estruturada para sustentar esse título.
Não há incentivos reais para o setor. Sem isso, o cenário tende a piorar, porque o problema não é falta de interesse, é falta de acesso. O público quer ir, mas não consegue pagar. O produtor quer realizar, mas não fecha a conta.
E o que eu prevejo, sendo bem realista, é que, se nada mudar, vamos ver cada vez mais eventos cancelados, turnês ignorando Belo Horizonte, redução de agenda nas casas de shows e uma concentração cada vez maior apenas em eventos “seguros” ou nostálgicos.
O mercado não acabou, mas ele está sendo forçado a encolher e o público mais ainda e isso não é bom para ninguém.
Agradecimento ao Patrick Mendes – Ex Supervisor do Befly por sua colaboração nos dados solicitados.

Rock-se, por
@rubiasouza
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Com mais de 25 anos de experiência em Comunicação, Cultura e mercado fonográfico. Fundadora da Atitude Produtora e da Mister Rock Tur, atua na produção de shows, festivais e projetos musicais em BH. Com passagens pela Transamérica, School of Rock Brasil e diversas iniciativas culturais, soma uma trajetória sólida na divulgação e gestão artística. Graduada em Comunicação e Turismo, possui múltiplas pós-graduações na área.



