Três décadas de estrada não são para qualquer um e quando o Jota Quest apareceu na cena mineira em 1996, com o álbum J.Quest, o passaporte para o cenário nacional veio embalado pelo suingue de “Dance Enquanto é Tempo”, uma ousada regravação de Tim Maia. Trinta anos depois, o quinteto formado por Rogério Flausino, PJ, Marco Túlio, Paulinho e Márcio Buzelin decide homenagear esse ciclo voltando exatamente para a sua maior raiz.
Durante a coletiva de imprensa do recém-lançado álbum “Jota Quest & Tim Maia – Dance Enquanto é Tempo”, onde estivemos presentes para desbravar cada detalhe dessa nova fase, ficou claro que o projeto é um acerto de contas com a própria história e uma carta de amor definitiva ao “Síndico”.

O resgate analógico e a recusa da Inteligência Artificial
Um dos momentos mais sensíveis do encontro foi a presença de Carmelo Maia, filho de Tim e gerente de seu espólio. A confiança da família no cuidado da banda foi tamanha que eles cederam as vozes originais do próprio Tim Maia para os duetos do projeto, incluindo a faixa inédita de abertura, “SEROMA”.
Durante o papo com a imprensa, a banda foi categórica ao afastar completamente o uso de inteligência artificial na concepção do disco. O respeito à obra veio na forma mais orgânica possível: tendo acesso aos canais de voz isolados cedidos pela gravadora, a banda tocou e gravou respeitando o andamento e a respiração original do ídolo. Não havia margem para atalhos digitais; a emoção e a simetria vieram justamente da sensação de estarem dividindo a sala de estúdio com o grande mestre.
O “Batismo” oficial e a bênção de Tim
Essa conexão profunda ganha ainda mais significado quando resgatamos a história por trás do próprio nome do quinteto. A banda relembrou como o “batismo” do grupo aconteceu pelas mãos e pela voz inconfundível do próprio Tim Maia. Na época, os músicos enfrentavam uma dor de cabeça imensa com direitos autorais movidos pela produtora Hanna-Barbera, por usarem o nome original “J. Quest”.
A solução caiu do céu em 1996, nos bastidores do festival Planeta Atlântida. Enquanto os seguranças do evento tentavam barrar os garotos de Minas Gerais, Tim pegou o microfone e mandou a bronca memorável: “Deixa os meninos do Jota Quest em paz!”. A confusão virou a solução definitiva, e a pronúncia abrasileirada salvou a identidade do grupo.
Tony Tornado, rap e a nova cena soul
Com produção musical minuciosa do baixista PJ, o álbum foge da armadilha de empilhar apenas os hits fáceis, resgatando também os “lados B” essenciais da obra do Síndico. E é justamente nos arranjos que o disco promove suas maiores pontes entre gerações. Durante a sabatina, questionei a banda sobre como eles dosaram o respeito aos arranjos originais com a abertura para que a nova cena reescrevesse parte dessa narrativa. A resposta evidenciou a intenção de honrar o legado da black music brasileira agregando a vanguarda e o passado.
O resultado dessa mistura é um reencontro histórico com Tony Tornado e seu filho Lincoln Tornado na clássica “Sossego” um ciclo completo, considerando que Tony gravou no disco de estreia do Jota há 30 anos. Ao mesmo tempo, Carlinhos Brown soma sua percussão à energia fresca d‘Os Garotin em “Imunização Racional (Que Beleza)”, Thiaguinho traz um samba-soul moderníssimo para “Réu Confesso”, e Mãeana entrega vocais para “I Dont Know What To Do With My Self“. O grande xeque-mate foi a inclusão de “Descobridor dos Sete Mares”, que não só ganhou uma roupagem inovadora como trouxe uma rima inédita e visceral da cantora e rapper Negra Li.
Rock in Rio e o “retrofuturismo” no palco
Uma obra com esse peso precisava de um debute à altura. A turnê “Jota Quest Toca Tim Maia” estreia no Palco Sunset do Rock in Rio, no dia 06 de setembro, com direção visual assinada por Batman Zavareze. Aproveitei para perguntar sobre como eles pretendem traduzir essa imersão 100% no universo do Tim ao vivo no palco.
Eles revelaram que os ensaios estão insanos para alinhar o repertório do Jota com a presença virtual do Síndico. O show terá uma estética retrofuturista, bebendo da atmosfera dos anos 70, e o ápice visual será justamente a exibição no telão daquele momento histórico em que Tim os defendeu dos seguranças.
Lançado em parceria com a Universal Music, o álbum já está disponível nas plataformas digitais e fará a alegria dos colecionadores com um futuro formato em vinil duplo. É o Jota Quest provando que, 30 anos depois, o groove continua reverenciando quem lhe ensinou a dançar.



